Bem-Estar Saúde

Queimaduras: é necessário ir ao hospital?

Entenda quais casos demandam atendimento médico urgente e tratamento especializado.

Diante da atual quarentena, a comunidade médica tem percebido um aumento nos indicadores de acidentes domésticos, principalmente aqueles que envolvem queimaduras. O próprio álcool gel, recomendado para higienização das mãos, de superfícies e embalagens durante esse período, é um produto altamente inflamável quando perto de chamas. Por isso, hoje exploramos esse tema, para exercer a prevenção por meio da informação.

Afinal, o que são queimaduras?

Queimaduras são danos na pele resultantes dos mais variados fatores, como contato com fogo, líquido fervente, vapor ou objetos muito quentes, correntes elétricas, radiação, luz solar e produtos químicos. Até mesmo alguns animais e plantas podem gerar queimaduras, como larvas, água-viva e urtiga, por exemplo.

As queimaduras podem afetar a camada externa e mais superficial da pele (epiderme), gerando vermelhidão e calor, ou podem ser mais intensas e dolorosas, ao atingirem a segunda camada da pele (derme), a camada de gordura sob a pele ou mesmo os músculos e os ossos do corpo humano. Nesses casos, as consequências variam entre dor forte, inchaço, manchas, dormência, alterações na cor e na aparência da pele, bolhas, cicatrizes e até mesmo deformidades graves.

“Vale ressaltar que, nas queimaduras elétricas, causadas por corrente de baixa voltagem – oriunda de eletrodomésticos, fios de alta tensão e raios, por exemplo –, a área queimada é pequena, mas a passagem da corrente elétrica pelo corpo pode queimar órgãos e tecidos internos, com a chance de comprometer a saúde do coração. Esse quadro requer a avaliação de um médico”, explica o Dr. Paulo Silveira, coordenador do Centro de Trauma do Hospital São Lucas Copacabana.

O especialista ressalta ainda que existem as queimaduras por inalação de fumaça, nas quais o paciente não apresenta nenhuma lesão externa, mas pode haver comprometimento de toda a via aérea, chegando à insuficiência respiratória aguda. “Essas queimaduras podem ser reconhecidas quando o paciente tem catarro escuro (cor de carvão), dor na deglutição, queimaduras dos pelos da face e falta de ar.”

O que fazer imediatamente após uma queimadura

Em primeiro lugar, mergulhe o local atingido em água fria o mais rápido possível, para resfriar a área e aliviar a dor. Se a roupa do corpo estiver pegando fogo, jogue água para apagá-lo imediatamente e, em seguida, retire ou corte o tecido da área lesionada. Cubra a queimadura com uma gaze estéril ou um pano limpo e seco. Se o ferimento for profundo e extenso, busque atendimento médico urgente.

“Nas queimaduras de primeiro grau, em que há apenas vermelhidão da pele, o uso de hidratantes no local afetado pode ser bastante útil”, comenta o médico.

O que não fazer imediatamente após uma queimadura

O Dr. Paulo ressalta a importância de deixar bem esclarecidas as contraindicações: não utilizar produtos inadequados, não tocar as queimaduras com a mão suja e nunca estourar bolhas. “Não aplique nenhum tipo de substância abrasiva, como pasta de dente, manteiga ou café, pois, apesar de gerar um efeito amenizador no momento, podem piorar a lesão posteriormente”, esclarece o médico. Também não é recomendado usar gelo no local, pois pode atrasar a cicatrização. O especialista orienta ainda a não descolar tecidos ou elementos estranhos grudados na pele queimada nem esfregá-la, para evitar a formação excessiva de bolhas.

Em quais casos é necessário ir ao hospital?

Se a queimadura afetar mais do que apenas a epiderme, é preciso buscar atendimento médico especializado. De acordo com o Dr. Paulo, as queimaduras de segundo grau (as que atingem a derme), na maioria das vezes, causam bolhas, enquanto as de terceiro grau (que atingem todas as camadas da pele) destroem nervos, o que pode gerar dormência e aspecto endurecido. Por causa desses fatores, não é recomendável tentar tratá-las em casa, pelo risco de infecção local.

“Toda vez que a pele é queimada, temos a destruição de nossa barreira contra infecções. Por isso, as queimaduras devem sempre ser avaliadas por um especialista para a realização de curativo adequado e prescrição de medicações específicas, visando minimizar a ocorrência de cicatrizes e de outras complicações mais graves. No caso de pacientes queimados em que a perda de água do corpo é muito grande, é fundamental um atendimento médico emergencial, para que haja infusão de grandes quantidades de soro fisiológico”, alerta o especialista.

O médico pontua ainda que as queimaduras ocorridas na face e nas áreas de articulação também merecem atenção médica urgente. “Nas queimaduras que envolvem os cílios e as fímbrias nasais e/ou sobrancelhas, há o risco de danos das vias aéreas e, consequentemente, evolução para edema (inchaço), podendo, inclusive, ter comprometimento da respiração. Já nas áreas de articulação, há chances de evoluir para o comprometimento circulatório da região ou gerar limitações do movimento quando não tratadas precocemente”, explica o coordenador do Centro de Trauma do Hospital São Lucas Copacabana.

“Se houver necessidade, temos diversas terapias para minimizar as cicatrizes de queimaduras e propiciar alta mais precoce do paciente, que envolvem o transplante de pele, a utilização de pele sintética e o uso de curativos de alta tecnologia em cicatrização, mas todas essas opções devem ser avaliados pelo especialista para sua melhor indicação e aplicação”, finaliza o Dr. Paulo Silveira.

Sobre o autor

Dr. Paulo Silveira

Dr. Paulo Silveira

Coordenador do Centro de Trauma do Hospital São Lucas Copacabana
Paulo Silveira é coordenador do Centro de Trauma do Hospital São Lucas Copacabana. Médico-cirurgião formado pela Faculdade de Medicina de Valença (RJ), foi presidente da Sociedade de Cirurgia do Trauma (SBAIT) entre 2015 e 2017.

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