
Receber um diagnóstico crônico traz muitas dúvidas. Separamos o que é fato e o que é mito na relação entre estas duas doenças do sangue.
Aquele cansaço persistente, a palidez que não melhora e a preocupação com os resultados dos exames de sangue podem facilmente levar a buscas por respostas. Quando se convive com uma condição crônica como a anemia falciforme, qualquer novo sintoma ou informação desencontrada pode gerar uma grande angústia, especialmente quando o assunto é câncer.
O que é anemia falciforme?
A anemia falciforme é uma doença genética e hereditária, ou seja, passada dos pais para os filhos. Ela é caracterizada por uma alteração nos glóbulos vermelhos do sangue, que perdem a forma arredondada e elástica, tornando-se parecidos com uma foice.
Essa mudança na estrutura da hemoglobina, a proteína que transporta oxigênio, faz com que as células do sangue se rompam mais facilmente e tenham dificuldade para passar por vasos sanguíneos pequenos. O resultado é uma série de complicações, como:
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Anemia crônica (pela destruição rápida dos glóbulos vermelhos)
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Crises de dor intensa
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Icterícia (pele e olhos amarelados)
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Maior risco de infecções e acidentes vasculares cerebrais (AVC)
Trata-se de uma condição que exige acompanhamento por toda a vida, com uma equipe multidisciplinar para manejar os sintomas e prevenir complicações graves. O diagnóstico geralmente é feito no nascimento, através do Teste do Pezinho.
O que é leucemia?
A leucemia, por sua vez, é um tipo de câncer que tem origem na medula óssea, o local onde as células do sangue são produzidas. A doença afeta os glóbulos brancos (leucócitos), que perdem sua função de defesa e passam a se multiplicar de forma descontrolada.
Essas células anormais ocupam o espaço na medula óssea que seria destinado à produção de células sanguíneas saudáveis. Assim, a leucemia provoca não apenas problemas no sistema imunológico, mas também pode levar à diminuição de:
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Glóbulos vermelhos, causando anemia.
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Plaquetas, resultando em sangramentos e manchas roxas.
Existem diversos tipos de leucemia, classificadas como agudas ou crônicas, e que afetam diferentes linhagens de células. O tratamento varia, mas geralmente envolve quimioterapia, imunoterapia ou transplante de medula óssea.
A anemia falciforme pode virar leucemia?
Não. A anemia falciforme não evolui nem se transforma em leucemia.
São condições diferentes, com origens distintas. A primeira decorre de uma alteração genética da hemoglobina, enquanto a segunda está relacionada a mutações celulares que levam ao desenvolvimento de câncer.
Mesmo quando não tratada adequadamente, a anemia falciforme pode causar complicações em órgãos como rins, pulmões e cérebro, mas não se converte em leucemia.
Por que existe essa confusão entre as duas doenças?
A confusão acontece porque a anemia também pode aparecer como consequência da leucemia. Quando a medula óssea é comprometida, a produção de glóbulos vermelhos diminui.
Isso pode levar à interpretação equivocada de que uma condição leva à outra. Na prática, ocorre o contrário: a leucemia pode causar anemia, mas a anemia não causa leucemia.
Qual é a verdadeira relação entre doença falciforme e risco de câncer?
Embora a anemia falciforme não se transforme em leucemia, estudos populacionais observaram que pacientes com doenças hematológicas crônicas, que envolvem um estado de inflamação e renovação celular constante, podem ter um risco ligeiramente aumentado para o desenvolvimento de certas neoplasias, incluindo as hematológicas. Isso, contudo, não é uma regra ou uma certeza de evolução.
Um estudo nacional inglês, que analisou registros de saúde, indicou que pacientes com anemia falciforme podem apresentar um risco significativamente maior para o desenvolvimento de algumas neoplasias malignas. Esse dado reforça a importância do acompanhamento hematológico preventivo para esses indivíduos (Seminog et al., 2016).
No entanto, é fundamental esclarecer que o risco de câncer mieloide, um tipo específico de leucemia, está associado apenas a complicações raras de tratamentos genéticos ou transplantes de células-tronco hematopoéticas. Isso não representa uma transformação natural da doença falciforme (Fitzhugh & Tisdale, 2022; Eapen et al., 2023).
Essas situações são excepcionais e exigem acompanhamento médico altamente especializado. O cuidado precisa ser focado em monitorar e gerenciar quaisquer complicações que possam surgir (Eapen et al., 2023).
Essa associação estatística não muda o fato de que são doenças distintas. O mais importante é manter o acompanhamento regular com um hematologista. Esse especialista monitora a saúde do paciente de forma integral, permitindo a detecção precoce de qualquer alteração ou complicação, relacionada ou não à doença de base.
Como deve ser o acompanhamento do paciente?
O cuidado do paciente com doença falciforme é complexo e deve ser conduzido por uma equipe de saúde integrada, incluindo hematologistas, cardiologistas, nefrologistas e outros especialistas. O objetivo é controlar os sintomas, prevenir as crises e garantir uma melhor qualidade de vida.
O acompanhamento inclui exames de sangue periódicos, avaliação da função de órgãos vitais e suporte para o manejo da dor. Manter o calendário de vacinas em dia e buscar atendimento médico imediato em caso de febre ou dor intensa são atitudes essenciais.
Manter esse acompanhamento ajuda a identificar qualquer alteração precocemente e conduzir cada caso com mais segurança.
Bibliografia
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